Mais ou menos pelo início das últimas três décadas do século XVIII, o aparecimento do acordeão na Europa e o empolgado entusiasmo que progressivamente foi gerando, fez de imediato enfraquecer o número dos que até aí se interessavam pelas violas de arame. Foram então muitos os violeiros que abandonaram o seu fabrico. Todavia, na classe dos instrumentos cordofones, a guitarra portuguesa concitava já alguns adeptos e os raros construtores que se dedicaram à sua manufactura desde logo procuraram dotá-la de mais e mais refinamento sonoro.
Assim, cada entendido começou por criar particulares segredos de fabrico, labor que passava pela rigorosa selecção das madeiras aplicadas e por diversificadas feições de fazer que visavam sobretudo distinguir os respectivos fabricantes pela imposição qualitativa de suas marcas.
Hoje, em 2007, os designados guitarristas, especialmente tarimbados no acompanhamento de Fado, não dispensam a utilização de uma guitarra ou viola à sua medida, cuja feitura encomendam em especial ou com oportunidade adquirem entre os exemplares que se afamam sob o dedilhado de executantes que entretanto vão desaparecendo, preciosismos estes aos quais devotam rigoroso cuidado e empenhado apreço.
Da guitarra portuguesa diz-se que é de origem remota e, entre diversas e díspares opiniões, presume-se que tenha tido por base a cítara renascentista ou o alaúde árabe. Nesta esteira, bem observando instrumentos semelhantes, por que não considerar também o mandolim, que é sem dúvida um dos que melhor se configura com a nossa afamada «bruxa de pinho»?
Meditando sobre a dilecta e indispensável companheira musical do exercício fadista, sugere-se-me remontar ao ano 1808, altura em que o general inglês Arthur Wellesley expulsou os invasores napoleónicos de Lisboa, submetendo o general Junot à Convenção de Sintra.
Naquela conturbada época, sob a euforia libertadora, inagine-se a ambiência da capital portuguesa com a soldadesca inglesa irmanada à população alfacinha, fruindo extravagantes noitadas por prostíbulos e tavernas.
Num desses vertiginosos convívios, entre fumarada, vinho e mulheres de fácil conquista, estaria um militar inglês a animar o serão, dedilhando com mestria um mandolim, o que suscitou particular curiosidade num dos convivas, português, também tocador e benquisto marceneiro de profissão. Naturalmente, logo que surgiu oportunidade, pediu ao militar estrangeiro para experimentar o instrumento.
Naturalmente, daquela noite bem passada ficou ao luso folgazão o desejo de também possuir um mandolim, deveras impressionado com os aplausos que a sua improvisada actuação no ensejo merecera.
Bom, o resto desta pequena e singela estória prossegue, em face de todas as dúvidas que se levantam sobre a origem da guitarra portuguesa, em cinco sextilhas que pretendem constituir mais um Fado se porventura encontrarem um inspirado músico que componha a melodia e uma voz que aprecie interpretá-las.
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Matutando, cá pra mim,
a cítara ou o mandolim
inspiraram concerteza
o artista português
que ao acaso um dia fez
a guitarra portuguesa.
Ao redor de lauta mesa
uma tertúlia burguesa
está em grande diversão
e lá no meio abancado
em exímio dedilhado
alguém anima a sessão.
Recostado ao balcão
um mestre na profissão
e marceneiro afamado
observa muito atento
as formas ao instrumento
por seu som maravilhado.
Mais tarde assaz devotado,
sem modelo e isolado
trabalhou dias a eito;
cortou, colou e lixou
e logo que terminou,
pasmou do que tinha feito.
Encostando a seu peito
o instrumento e com jeito
ao tocá-lo na incerteza,
pela emoção que sentiu
foi o primeiro que ouviu
a guitarra portuguesa!
Torre da Guia |
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